
Há tempo bom para todas as coisas boas, desde que, cada coisa boa, seja feita a seu tempo
No dia 13 de maio de 2009 li uma notícia que me entristeceu, assim como – penso eu – entristeceu também muita gente que admira o talento do humorista Chico Anísio. Não, graças a Deus ele não passou para o andar de cima. Mas de certa forma, Chico nos deixou carentes ao anunciar em seu Blog que está de saída. Foi com o título “VOU ALI E JÁ VOLTO”, que o Velho Zuza, Seu Popó, Coalhada, Paínho, Azambuja e o famosíssimo Professor Raimundo, se despediu – no singular mesmo, porque são todos personagens criados por esse ícone do humor brasileiro.
Aos 78 anos de idade, Chico parou. Seu texto ainda fala na inércia dos compromissos assumidos: meia dúzia de show e apresentações com data marcada, agendas que pretende cumprir. Após isso se dedicará apenas a trabalhos que não tenham data pré-estabelecida. “Vou parar com todas as coisas que não sejam obrigatórias”, disse. Depois, o ostracismo.
“O homem é eterno quando seu trabalho permanece”: não faço idéia de onde ouvi essa frase, mas não tenho dúvidas de que é uma das anexada a meu repertório, com a qual mais simpatizo. O trabalho de Chico permanecerá, não tenho dúvidas, porque mesmo tendo apertado o botão do “fôda-se” – e ter ido cuidar do que avalia ser mais interessante que cumprir agenda – sua parte ele já fez. E bem feita, diga-se. Isso me põe a pensar nas pessoas que se dignam a acionar o referido botão antes de concluir “a parte que lhe cabe nesse latifúndio”. Muita gente desce do bonde sem que ele tenha parado completamente ou, ao menos, esteja numa velocidade segura. Caso de Chico.
Penso que o homem deixa de viver, não quando o coração para de bater, os pulmões de respirar e o cérebro de pensar. No meu singelo modo de espiar a vida, a vida termina de-fi-ni-ti-va-men-te, quando deixamos de sonhar, de ter esperança e de fazer planos para o futuro, ainda que esse futuro seja daqui a cinco, dez minutos. A vida não tem prazo de validade, com data estipulada para parar de viver, mesmo respirando e sonhando, ainda que o sonho seja uma quimera. A vida é para a vida toda, sem restrição de tempo para novas tentativas. A saúde... Bem a saúde é outra coisa... Muitas vezes senhora do destino, principalmente quando debilitada; mas não detentora absoluta dos sonhos (e cabe aqui uma reflexão pessoal de cada um).
Chico pode se dar por realizado, mesmo tendo deixado a produção em escala industrial de seu trabalho e declarar que só fará o que lhe dá prazer, sem precisar obedecer – às pressas – aos horários de fechamento das redações. Há pessoas que realizam seus sonhos e, ainda assim, buscaram novos desafios após as conquistas, mesmo que em passos mais lentos. Mas nem todos alcançam esse estágio. Muitos preferem o comodismo extraído das dificuldades e obstáculos encontrados nas poucas tentativas e desistem. Deixam o bolo, ainda no forno, queimar sem sentir o sabor da iguaria assada ao ponto. O mestre Chico se deu conta a tempo, que o tempo da produção industrial passou. Quem viu, viu.
E que consigamos tirar de seu exemplo uma lição: há tempo bom para todas as coisas boas, desde que, cada coisa boa seja feita a seu tempo.
Pense nisso.
Uma nota:
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára
(O Tempo Não Pára – Cazuza / Arnaldo Brandão)

Um comentário:
Olá Guinho!
Encontrei seu blog fazendo uma pesquisa sobre a arte de não desejar.
Estou por aqui já faz um tempinho e gostando bastante de seus textos.
Um abraço, Norma.
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