Um ensaio crítico sobre a crescente selvageria nas torcidas organizadas em contraponto ao uso da força pública para a segurança dentro de campo.
Por Ginho de Souza
Quando duas grandes equipes de futebol se enfrentam, nós cidadãos temos o prazer e o desprazer de assistir a dois confrontos no mesmo dia. O mais importante é o jogo, propriamente dito, com suas regras acompanhadas e assinaladas, a cada infração, a poucos metros pelo homem do apito. Tem também as lentes das TVs com seus tirateimas tecnológicos, que permitem a cada replay, uma análise mais apurada do que aconteceu. O segundo enfrentamento, geralmente acontece fora dos estádios e é o que podemos descrever como duelo, selvageria, guerrilha urbana ou algum outro adjetivo nessa linha de raciocínio.
Há poucos dias, dentro e fora do campo, se enfrentaram no estádio do Pacaembu, Corinthians e Vasco da Gama, clube da cidade maravilhosa. No campo, zero a zero, mas fora dele – no confronto entre as duas torcidas antes da partida – o saldo foi de um morto a zero para o Vasco. Sim um morto, cadáver ou presunto, como diriam no jargão policial. Os ônibus das duas torcidas rivais se encontraram em um determinado local e o pau, literalmente, comeu. Teve socos e pontapés, pauladas, garrafadas e golpes com barras de ferro, o que, provavelmente tenha causado a morte de um jovem corintiano. A polícia interveio e levou um bocado deles para a delegacia, onde autuou alguns por formação de quadrilha. Justo e bem feito, pois o fato aconteceu na rua, local de atuação da força pública estadual.
Isso dito cabe fazer uma observação sobre – não à atuação das torcidas (organizadas ou não) de equipes de futebol, mas sobre – a intervenção da polícia para desarticular quadrilhas disfarçadas de torcedores que incitam, promovem e protagonizam atos de violência a caminho, durante e na volta dos espetáculos futebolísticos. Que a força pública deve zelar pelo bem estar e segurança dos cidadãos nas ruas, nem pode entrar em discussão. Esse é o seu papel.
O que me deixa indignado, inconformado e sem entender é: o que que a polícia vai fazer “dentro” do estádio, num jogo de futebol, que tem ingresso pago – caro, diga-se –; é um espetáculo que, apesar do apelo popular, tem propósitos mercantilistas, que enriquecem meia dúzia de cartolas e paga salários lá na lua para boa parte dos jogadores? Sim, por que eu, você, nós pagadores de impostos temos de arcar com os honorários para a polícia fazer segurança dentro de um espaço onde os organizadores ganham somas estratosféricas? Por acaso não caberia a eles contratarem empresas de segurança particular para tomar conta de seus eventos?
Penso que a presença da polícia se justificaria, por exemplo, em uma apresentação gratuita da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (que também é paga com nosso dinheiro), no Parque do Ibirapuera. Um espetáculo de graciosidade – em ambos os sentidos, tanto cultural, quanto por ter portões abertos a quem quiser chegar. Nada mais justo que o Estado dê segurança aos cidadãos que contemplam o espetáculo musical, afinal de contas é num espaço público, com catraca livre e, de qualquer forma, a segurança pública já está paga com nossos impostos. Mas qual a justificativa para uma corporação paga com meu dinheiro estar presente, com contingente considerável, dentro de um estádio de futebol?
Sendo assim, também quero a presença da polícia no interior da boate que frequento, do espetáculo teatral, do cinema e do museu, porque tudo isso tem ingresso pago, assim como o estádio de futebol. Mas os seguranças são de empresas particulares. Se os públicos são diferenciados, ah... isso lá é outra conversa. Há então que se fazer com que mais educação, cultura e lazer, cheguem ao alcance dos menos favorecidos, que têm na baixa qualidade dos programas exibidos na TV brasileira e nos abarrotados e imundos estádios de futebol, as únicas fontes de entretenimento. Ou, como diriam os Titãs: “A gente não quer só comida. A gente quer bebida, diversão e arte”.
Só para constar: A declaração de óbito do Instituto Médico-Legal (IML) de São Paulo informou que o corintiano morto foi vítima de “traumatismo crânio-encefálico devido a agente contundente”.
Pense Nisso

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