Confesso que não sei de onde veio meu medo de descarga. Sim, essa descarga que tem um botão pregado na parede e a gente aperta pra fazer o que já foi feito ir embora. O barulho da água lavando violentamente o vaso me atormentava a ponto de não criar coragem para me aproximar. Mas de uma coisa tenho certeza: esse era um dos tantos motivos de eu não ir sozinho ao banheiro, nem por decreto, durante a aula e fazer xixi nas calças, terminantemente todos os dias de quase um ano inteiro, quando já cursava a segunda série primária. Porém, o mais célebre e que ainda dá um certo remorso ao lembrar, foi o dia em que a professora chamava um a um para resolver um exercício matemático dado como tarefa no dia anterior, desses que faz em casa e corrige na escola.
Na medida em que se aproximava minha vez, duas coisas me atormentavam: o fato de não ter feito a tal tarefa – mas não ter feito porque não sabia, não entendia patavinas de matemática – e porque estava desordenadamente apertado para mijar.
O desespero me apresentou uma medida paliativa. Quem sabe se soltasse só um pouquinho da urina – nada que comprometesse o bom andamento da carruagem – eu não me aliviaria e agüentava mais um pouco a tortura até sair e visitar minha amiga moita, na esquina da escola? Quem sabe? Mas não. Aquele só um pouquinho virou outro e outro e mais outro, que se transformaram em uma espelhada poça debaixo da carteira. Sem contar a mancha nas calças.
Chegou minha vez. Levantei com o mesmo sentimento de culpa que caminha o homicida em direção à cadeira elétrica, ainda clamando por piedade; por uma anistia governamental ou pela falta de energia no quarteirão. Não, nada disso aconteceu e eu virei alvo de toda sorte de chacota da molecada, frente àquela cena bizarra que protagonizei. Caminhei em passos lentos, meio de lado, numa última e misericordiosa tentativa de esconder o alívio da bexiga. Encostei no quadro negro com tanta vergonha que querer que o mundo se acabasse passou a ser meu ambicioso sonho de consumo.
_O que você fez? Perguntou dona Dulce, como se em seus duzentos anos de magistério nunca tivesse visto um moleque mijado.
_Eu? Não fiz nada. Respondi com voz embargada, falando mais pra dentro do que pra fora. Agora a vergonha havia se transformado em raiva, ódio e vontade, não mais de sair correndo e me esconder do mundo, mas de voar na garganta de dona Dulce e reproduzir uma cena qualquer de filme de terror, onde o mais fraco vence o mais forte. Só devaneios. Na mente de uma criança nascem frutas híbridas de misturas bizarras.
Não escrevi uma só letra no quadro e voltei chorando. Sentei e tentei fingir que nem era comigo. Ledo engano. Eu já havia roubado a cena e o centro das atenções, ao ponto de relegar a aula a mero segundo plano. Só uma coisa importava a meus, naquele momento, nem tão amigos: eu, o mijão.
quinta-feira, março 26
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