quinta-feira, março 26

Meus Oito Anos. Que não são os de Casimiro

Confesso que não sei de onde veio meu medo de descarga. Sim, essa descarga que tem um botão pregado na parede e a gente aperta pra fazer o que já foi feito ir embora. O barulho da água lavando violentamente o vaso me atormentava a ponto de não criar coragem para me aproximar. Mas de uma coisa tenho certeza: esse era um dos tantos motivos de eu não ir sozinho ao banheiro, nem por decreto, durante a aula e fazer xixi nas calças, terminantemente todos os dias de quase um ano inteiro, quando já cursava a segunda série primária. Porém, o mais célebre e que ainda dá um certo remorso ao lembrar, foi o dia em que a professora chamava um a um para resolver um exercício matemático dado como tarefa no dia anterior, desses que faz em casa e corrige na escola.

Na medida em que se aproximava minha vez, duas coisas me atormentavam: o fato de não ter feito a tal tarefa – mas não ter feito porque não sabia, não entendia patavinas de matemática – e porque estava desordenadamente apertado para mijar.

O desespero me apresentou uma medida paliativa. Quem sabe se soltasse só um pouquinho da urina – nada que comprometesse o bom andamento da carruagem – eu não me aliviaria e agüentava mais um pouco a tortura até sair e visitar minha amiga moita, na esquina da escola? Quem sabe? Mas não. Aquele só um pouquinho virou outro e outro e mais outro, que se transformaram em uma espelhada poça debaixo da carteira. Sem contar a mancha nas calças.

Chegou minha vez. Levantei com o mesmo sentimento de culpa que caminha o homicida em direção à cadeira elétrica, ainda clamando por piedade; por uma anistia governamental ou pela falta de energia no quarteirão. Não, nada disso aconteceu e eu virei alvo de toda sorte de chacota da molecada, frente àquela cena bizarra que protagonizei. Caminhei em passos lentos, meio de lado, numa última e misericordiosa tentativa de esconder o alívio da bexiga. Encostei no quadro negro com tanta vergonha que querer que o mundo se acabasse passou a ser meu ambicioso sonho de consumo.

_O que você fez? Perguntou dona Dulce, como se em seus duzentos anos de magistério nunca tivesse visto um moleque mijado.
_Eu? Não fiz nada. Respondi com voz embargada, falando mais pra dentro do que pra fora. Agora a vergonha havia se transformado em raiva, ódio e vontade, não mais de sair correndo e me esconder do mundo, mas de voar na garganta de dona Dulce e reproduzir uma cena qualquer de filme de terror, onde o mais fraco vence o mais forte. Só devaneios. Na mente de uma criança nascem frutas híbridas de misturas bizarras.

Não escrevi uma só letra no quadro e voltei chorando. Sentei e tentei fingir que nem era comigo. Ledo engano. Eu já havia roubado a cena e o centro das atenções, ao ponto de relegar a aula a mero segundo plano. Só uma coisa importava a meus, naquele momento, nem tão amigos: eu, o mijão.

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