
Quisera eu que todos fôssemos magos da varinha de condão e que nossos abraços de fim de ano pudessem – não apenas representar desejos vagos e vãs filosofias
Todo ano é a mesma coisa. Ao se aproximar o final do mês de dezembro as pessoas ficam como que possuídas por um espírito do bem. Gastam seus décimos terceiros em compras, muitas vezes, supérfluas. Tudo em nome desse espírito que paira no ar e amolece corações dantes de pedra.
As manifestações têm várias faces: inimigos se cumprimentam, famílias se reúnem, longínquos se revêem e, acima de tudo, se presenteiam, se desejam coisas boas. Tudo de mentirinha.
Por que presentear as pessoas de quem gostamos (ou nem tanto, caso dos amigos secretos), somente em datas específicas e não quando sentimos vontade de presenteá-las? Por que não sentimos compaixão e força de vontade de rever pessoas das quais sentimos saudade o ano todo? Por que, ao invés de apenas desejarmos bondades agindo como mágicos bobalhões sem poder místico, não fazemos na prática, coisas que realmente proporcionam bons resultados a quem queremos bem?
As pessoas se abraçam ao final do último expediente do ano cobrindo-se de boas venturas, como se simplesmente desejar algo de bom resultasse na realização do desejo.
Se assim fosse, num passe de mágica acabaríamos com a pobreza, com a cegueira, com câncer de seio e próstata e com as guerras, terremotos e tsunamis. Ou ao contrário: eliminaríamos desafetos, empobreceríamos os ricos, destituiríamos políticos e destruiríamos amores de dores-de-cotovelos; somente com o desejo. Ainda bem, não é assim.
Ao final de cada ano expiramos as mazelas do que se foi e inspiramos – ainda que utopicamente – o ar fresco do ano novo, como se colocássemos um ponto final numa frase mal escrita e recomeçássemos outro parágrafo, letra maiúscula, dois dedinhos...
Não nos damos conta, porém, que a vida é a mesma, o emprego (ou desemprego) o mesmo, a família, as dívidas, os males, os sonhos, ilusões e desilusões estão todos iguaizinhos. O que muda de verdade é apenas a folha do calendário. Esta sim, novinha em folha.
A esperança também insiste em se renovar e, assim como o calendário, também tem vida útil limitada e poucas vezes sobrevive, apesar de ser sempre a última que morre.
Quisera eu que todos fôssemos magos da varinha de condão e que nossos abraços de fim de ano pudessem – não apenas representar desejos vagos e vãs filosofias, mas – realizar concretamente o que desejamos uns aos outros. E cada um que arcasse com as conseqüências.
Pense nisso.
A propósito:
Cabe aqui o trecho de uma música do grupo “Garotos Podres”, que muito me lembra essa demagogia de Papai Noel, em detrimento de Jesus Cristo, o verdadeiro aniversariante e de quem as pessoas se esquecem, para celebrar a pseudo-existência de um ancião que insiste em usar botas, luvas e gorro no calor tropical brasileiro.
Papai Noel Velho Batuta
Garotos Podres
Garotos Podres
Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

2 comentários:
Jorge,
a sua propaganda deu certo. Visitei o seu blog e adorei.
Sabe, até hoje me pergunto por qual motivo sempre te chamo de Jorge? Sei que está mais acostumado com "Ginho", mas gosto do seu nome.
Beijos !!!
lindo texto... aliás, mais real do q eu gostaria...
mas se vc xingar d novo o bom velhinho, acabo com sua raça!! hauhaua
=P
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