sexta-feira, julho 27

Os Chapéus Nossos de Cada Dia


Quantas vezes você já levou um eletrodoméstico para consertar e saiu satisfeito com o resultado do conserto? Se a resposta for “várias” pode se considerar uma pessoa feliz, porque nem sempre é assim. É claro que, em muitos casos, o apreço que temos por nossas coisas não delimitam o tempo real de vida útil do objeto. Daí nós queremos que durem eternamente, como aquela arca de madeira de lei que a vovó deixou no sótão e que permanece do jeito que era há anos ou como a antiga cristaleira em mogno puro, com desenhos entalhados nas portas. Conservadíssima.

Hoje sabemos que as coisas são feitas para não durar, para ter um tempo de vida reduzido: móveis são fabricados com uma espécie de pó-de-serra misturado com cola que, ao primeiro contato com umidade, se desfigura todo e pede outro urgentemente antes mesmo de acabarmos de quitar o carnê de pagamento. Computadores ultramodernos ficam ultrapassados em questão de meses, diferente da máquina de escrever Remington, feita de ferro e que durava a vida toda (e durava mesmo, porque a vovó já partiu e a máquina continua lá, dentro da arca, no sótão, inteirinha e só enferrujou por falta de uso).

Mas é de assistência técnica que quero falar. De técnicos que aproveitam nossa ignorância sobre as partes internas dos produtos e encontram defeitos nas rebimbocas das parafusetas, tudo para nos confundir e facilitar a extorsão, pois sabem que se procuramos assistência técnica é porque precisamos do aparelho funcionando o quanto antes.

Tenho um amigo que conserta computadores. Certa vez me confidenciou que, quando o defeito é mínimo costuma fazer caras e bocas diante do cliente para fingir que o problema é grave, valorizar a cobrança e deixar subentendido que, apesar de ser um defeito das arábias, ele consertaria por aqui mesmo. Muitas vezes o problema pode ser resolvido na hora, mas ele pede para voltar depois de um ou dois dias. Dessa forma consegue cobrar mais pelo serviço. Outro levou uma máquina de lavar ao conserto, pois ela não deixava seus vizinhos de apartamento ouvirem a novela, tamanho barulho que fazia. Pagou pelo conserto quase o valor de uma máquina nova, mas achou que valeu a pena: parcelou o pagamento em três vezes. Tão logo acabou de pagar, a máquina não só voltou a atrapalhar a novela, como também passou a alagar todo o andar onde morava, inclusive os outros apartamentos. Além de ter que comprar uma nova e ouvir desaforos dos vizinhos, ainda descobriu que o picareta que fez o conserto havia usado materiais recondicionados e cobrado por novos.

Outra de computador, mas desta vez a vítima fui euzinho de Souza-sauro: após muitas tentativas e ensaios troquei meu PC, que não andava lá essas coisas, mas ainda funcionava. Agora precisava desocupar o espaço para a máquina nova. Propus o preço ao dono da loja de micros usados, amigo meu de longa data. Acertamos que ficaria em consignação e que assim que fosse vendida ele repassaria minha parte. Três meses depois, cansado de esperar voltei à loja e o cidadão me disse, na maior cara-de-pau, que havia desmontado o micro, pois precisou de peças para consertar outro e que, tão logo tivesse condições me ressarciria o prejuízo, pois estava passando por momentos difíceis. Perdi o amigo, porém senti mais pela perda do computador, mesmo usado e capengando.

Certa vez recebi um comunicado da videolocadora que, a partir do próximo mês, não teriam mais fitas VHS para alugar. Os DVD's invadiriam as estantes como a praga do gafanhoto.

Eu quase não fico em casa e por isso não sinto falta de lazer doméstico, mas ainda assim comprei um aparelho de DVD. Nessa época meu bom e velho videocassete resolveu, como que num ato de protesto, engolir a fita de um documentário que eu produzia, na época, para a faculdade. Resolvi aposentá-lo, mas antes precisava tirar a tal fita de dentro. Com medo de danificar ainda mais a mastigada produção levei o vovô-vídeo a um técnico que me garantiu a devolução no dia seguinte. Dito e feito. Apenas uma parte sem muita importância ficou perdida na filmagem e, segundo ele, o vídeo nada sofreu.

Substituído pelo DVD, fiquei um longo período sem usar o vovô-vídeo, até o dia em que precisei rever uma fita, que se recusou a reproduzir. Fui ao mesmo técnico e ele, descaradamente, sem um pingo de remorso e com a chancela de “enrolei um trouxa” na face, me disse que haviam retirado o cabeçote do vídeo e ainda me alertou que “não é em todo mundo que se pode confiar”. Fala sério: me chamou de careca e ainda ofereceu um pente!
É claro que existem pessoas honestas que tratam o cliente com respeito, fazem o serviço de forma decente, por preços justos e coisa e tal. Mas não é desses a quem me refiro.

Parece mesmo que houve um complô de fabricantes contra consumidores e que esses últimos estão fadados a se subordinar aos desmandos da indústria que produz coisas cada vez mais para durarem cada vez menos. Nesse meio estão os pseudotécnicos, sempre prontos a nos aplicar um golpe de mestre, com a promessa de estender a longevidade do nosso forno de microondas, televisor, chuveiro, aparelho de som, telefone celular (esse então parece febre: adora uma passadinha na assistência técnica)... e tome “chapéu”!

Tantas são as estórias que conheço sobre pessoas ludibriadas por espertalhões, que não caberiam nesse artigo. Num livro, quem sabe? Às vezes somos obrigados a engolir a traição, mesmo sabendo que estamos sendo traídos somente para manter a aparência de pessoa civilizada.

Agimos, ainda que involuntariamente e por conta das necessidades do dia-a-dia, como burros de olaria que, após longos dias presos ao moinho e fazendo exatamente o mesmo trajeto circular, ao serem soltos, não conseguem andar em linha reta, como se ainda estivessem atrelados à moenda. E lá vamos nós, novamente, comprar outro forno de microondas, televisor, chuveiro, aparelho de som, telefone celular... a vida pede, a necessidade obriga. Se quebrar? A assistência técnica é logo ali. Pense nisso.

4 comentários:

Unknown disse...

Ai se não fosse eu nessa dupla!rssss
Seu blog tá lindo!

Bjos

Cássia

Mutante X disse...

E eu tentando descobrir quem era esse tal de Ginho... Jorginho... Jorge... Dãããããã...

hehehehe...

Abraço pra você, parabéns pelo blog.

Eduardo

Disco voador disse...

Pô Jorge, fica escrevendo mais aí truta!

Anônimo disse...

Ginho,
os comentários classificados como comentários do Climatizado bem como as outras classes de spams podem ser tranquilamente apagados por você.

Abração