Todos nós sabemos: ninguém é o que aparenta ser, ou estar, ou melhor: ninguém age como é, mas sim como quer aparentar ser. Calma, eu explico, ou tento...As pessoas, ao acordarem, tão logo abrem os olhos começam a buscar no consciente a forma mais adequada de como devem agir durante o dia, diante da interminável avalanche de coisas que possam lhe acontecer. É claro que, apesar de, na maioria das vezes sabermos aonde vamos e – geralmente – quem vamos encontrar, nos despimos da inocência que esteve ao nosso lado durante o sono e nos vestimos com uma carapaça invisível que será nossa representação durante o próximo período. Digo isso porque acredito que as pessoas agem de acordo com o que lhes convém, mesmo que para isso tenham que desempenhar um papel digno dos grandes artistas de teatro, sem direito a cortes ou edições.
Muitas vezes fingimos gostar de determinada coisa ou situação, tão somente para agradar outra pessoa e, quando não, simplesmente para tirarmos proveito disso. Imagine se tivéssemos o dom de ler pensamentos, se pudéssemos adivinhar o que nossos amigos, desafetos (duvido que você não tenha um sequer), chefes, subalternos ou pessoas que viajam ao nosso lado no metrô ou no ônibus, estão pensando. De nada adiantaria usarmos as máscaras hipócritas que nos representam a cada dia ou fingir que aquela situação desagradável nos agradou, pois todos saberíamos o que uns estão pensando dos outros. Seria, no mínimo, divertido.
Quantas vezes somos obrigados engolir a seco um desaforo, um desrespeito, uma “saia justa”, em nome da boa educação e da falsa impressão de que a afronta não nos atingiu, apesar dela ir e vir disfarçada de benevolência?
Penso – dentro de minha admitida ignorância – que o ser humano só é ele mesmo em três situações: 1ª dormindo, 2ª “quando sente dor” e 3ª quando está sozinho no banheiro. Acredito que, quando dormimos acontece uma certa promiscuidade entre as funções do id, ego e superego (e não quero entrar nessa questão). Acho que eles se esquecem de suas patentes e se misturam ao ponto de não nos deixar dominar sequer os espasmos reacionários do corpo. Quem é que nunca caiu da cama, por exemplo? Ou nunca caiu naquele buraco sem fundo e acordou de solavanco?; “Todo mundo é parecido quando sente dor”, diz um trecho da música do grupo Barão Vermelho “O poeta está vivo”. Sim. Quando se sente dor, não há aquele que não se pareça com todos os outros e se permita revelar suas – dantes inconfessáveis – maiores fraquezas? Porque na verdade – e de verdade – somos todos iguais. O que supostamente nos difere são as posses de cada um, a ganância pelo vil metal e a hipocrisia de dizer que nos preocupamos com os menos abastados e com o, como eu diria?... próximo – mas que se estiver muito próximo incomoda; sozinhos no banheiro dependuramos no biombo, ainda que sem se dar conta, a dissimulada aparência e nos igualamos, mais uma vez a todos os outros mortais que têm necessidades fisiológicas iguais a todos os outros animais.
Mais uma vez admito a máxima de que “a vida imita a arte”: assim como na peça teatral “Cada Um Com Seus Pobrema”, onde o ator Marcelo Médici surpreendeu a platéia ao representar sozinho, nove personagens – todos diferentes entre si, porém inseridos em uma mesma sociedade – nós seres pensantes, antropologicamente evoluídos e – como diria Jorge Furtado no premiado curta-metragem “Ilha das Flores” – com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, nos portamos diante das situações do dia-a-dia, como dóceis gatos siameses que, enquanto encontram terreno fértil para bajulações tiram proveito, mas quando acuados, mostram ferozmente as garras. Assim como domésticos felinos, cada vez que somos ameaçados mostramos involuntariamente toda a herança irracional que trazemos disfarçada pelas máscaras usadas nas simulações de cada dia. Permita-me, astuto leitor, parafrasear Lulu Santos:”assim caminha a humanidade”. Pense nisso.

3 comentários:
"Um pouquinho cruel, mas verdadeiro."
Beijos
Gil
Ai se não fosse eu nessa dupla...
Amigo, vc é 10!
Bjos!
Cássia
Oieee.. Parabéns.
Adorei o texto.
Além de ótimo radialista você tem um texto excelente.
Adorei
Rê Manzano
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