segunda-feira, agosto 6

Comemorar sem ter vencido


Tomei a liberdade de ilustrar o texto abaixo, com a 'tira' do grande cartunista Laerte. Penso que ela retrata exatamente a idéia abordada, onde as pessoas deixam de buscar seus próprios desejos, em detrimento dos sonhos alheios.

Se a visualização não estiver legível, aqui vai a tecla SAP:
Figura 1- O bonde chamado desejo não circula mais...
Figura 2- ... Só a Van filosofia.

Eu já havia abandonado a profissão de disk-jockey, com a qual me diverti muito, mas ganhei pouco, apesar de – sem modéstia – sempre manter a pista cheia quando tocava. Porém, me rendi ao convite de um amigo que inaugurou um barzinho com pista de dança. Durante alguns finais de semana revivi minha adolescência. Nada que se comparasse em espaço às casas onde trabalhei anteriormente, mas era um ambiente gostoso, aconchegante e bem freqüentado.

Ok! Era 2002. O Brasil disputava mais uma copa do mundo e naquela manhã do dia 30 de junho sagrou-se, como todos sabem, pentacampeão mundial. Grande coisa, pois para os tantos outros brasileiros nada mudou, além do falso sentimento de que ganharam algo de verdade. Eu não estava diretamente ligado ao evento, mas num jogo de esperteza do proprietário do tal barzinho fui recrutado às pressas para comemorar a vitória da “nossa” seleção.

O cenário era o seguinte: caixas acústicas viradas para a rua, onde era grande a concentração de pessoas uniformizadas de verde e amarelo e portando bandeiras como se estivessem num estádio de futebol. À noite, nos bailes, eu tocava dance music, reggae, flash-back, rock nacional, mas ali tive de improvisar um som mais popularesco no estilo (socorro...) É o Tchan e coisas – isso mesmo, coisas que são impossíveis de se chamar de música – do ramo. Ainda arrisquei “O que é o que é”, de Gonzaguinha e o nosso lindo Hino Nacional, mas foi só o que deu para aproveitar.

Oportunamente uma máquina fazia girar frangos e costelas na brasa de gás de cozinha, o que era canibalisticamente devorado com cerveja pelos pseudocampeões, não antes de pagarem pelas iguarias e pela birra gelada. O povo se abraçava; famílias inteiras que passavam em carreatas paravam para se confraternizar com os foliões de um, já formado, carnaval temporão.

De repente, não pude acreditar no que vi... Sim, ali estava ele assim trajado: bermudão verde, camiseta canarinho, tiara silcada “campeão mundial”, bandeira em punho; na outra mão, uma lata de cerveja da marca que patrocinou as transmissões dos jogos pela TV e, debaixo do braço, uma daquelas cornetas ridículas que reproduzem um fóóóóm horroroso.

Tá bem... havia ali dezenas de pessoas nas mesmas condições, mas o que me chamou a atenção é que, por aquele meu conhecido eu tinha (veja o tempo do verbo), até então, uma admiração ímpar. Tinha-o como modelo de pessoa sensata, desmassificada. Com ele havia passado horas a fio discutindo temas que vão além de quem o técnico deveria escalar na ponta esquerda. É claro que não chegávamos à teoria da relatividade... não forcemos a barra, mas conosco e, principalmente partindo dele a conversa era sempre produtiva, eclética e agradável.

É claro que, no fundo, eu também estava feliz pela vitória do Brasil, mas nada que me tirasse o juízo a ponto de pagar aquele mico, pois ali nada de concreto se comemorava. Na prática o país continuou batendo recordes de miséria, desigualdade social, desemprego. Continua sofrendo as mazelas da má distribuição de renda, onde poucos, pouquíssimos têm muito, muitos têm pouco e o restante, nenhuma das alternativas.

Quem realmente ganhou – merecidamente muito dinheiro – foram os jogadores, a comissão técnica, as TVs, os hotéis e todas as outras partes que souberam, assim como o dono do barzinho, tirar proveito da euforia vaga, vã, grátis e passageira de um povo politicamente analfabeto, que se preocupa e dá mais importância às vitórias alheias do que às suas próprias – se é que elas existem ou existirão algum dia.

Naquela cena percebi que mesmo quem caminha pela fresta de luz da educação permitida pelos governos tende a se trair e experimentar, ainda que em doses homeopáticas, o sabor da ignorância e da manipulação midiática aí à solta.

Ao me ver, meu amigo (universitário, inteligente, formador de opinião, etc.) correu ao meu encontro e me abraçou com um grito de “somos campeões”. Aí eu pergunto: por que “somos”? Se naquele dia eu não ganhei nada, além do cachê por estar trabalhando, ainda que contra a vontade? Diferente dos verdadeiros campeões (jogadores, comissão técnica, etc.), no dia seguinte a maioria ali presente acordou cedo e foi cumprir a mesma rotina de outros dias, sem ganhar um só tostão a mais por isso. Os verdadeiros campeões não. Pense nisso.

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