segunda-feira, março 17

Os recordes que nos envergonham



Uma rápida pesquisa na internet me revelou dados nada animadores a respeito do Brasil que tanto amamos e defendemos com as armas que dispomos: somos recordistas mundiais de categorias que nos colocam no mais alto patamar de um pódio ao revés das grandes e gloriosas conquistas.


Ocupamos a primeira posição em categorias inimagináveis e vergonhosas, não sei se, por sermos gigantes pela própria natureza, o que dificultaria um acompanhamento mais próximo dos problemas que afligem a terra adorada, ou se, pelo descaso e falta de interesse das autoridades governamentais, que mais se preocupam em desvendar ou encobrir mensalões, mensalinhos, cartões corporativos e sanguessugas ou só se ocupam com suas respectivas eleições e reeleições, para que se mantenham permanentemente em gozo de poder e conforto à custa dos filhos desse solo, que vivem sempre cheios de amor e de esperança.


De acordo com o Relatório sobre o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), feito em 177 países pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em 2003 o Brasil ocupava a 8ª colocação em desigualdade social, à frente apenas da latino-americana Guatemala e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Já no período entre 1993 e 2004, a desigualdade brasileira teve queda de 13%. Apesar da diminuição na distribuição da renda, o resultado ainda manteve o Brasil em 10º lugar entre os países com maior desigualdade no mundo.


O Pódio é nosso

Ocupamos o primeiro lugar em desmatamento, este quesito, aliás, nos dá a honra de constar no Guinness Book, o livro dos recordes, edição de 2005. Mas não pense que ostentamos esse título há pouco tempo. A pátria amada, idolatrada, salve! salve! é recordista em áreas desmatadas nos últimos cem anos e, de acordo com o livro, perdeu nesse período uma área de floresta equivalente ao Estado de Sergipe. A média anual de devastação de matas entre 1900 e 2000 foi de mais de 22 mil km².

O mais recente relatório divulgado em abril de 2008 pelo Banco Mundial (Bird) aponta que entre os anos 2000 e 2005 foram desmatados anualmente no Brasil, 31 mil quilômetros quadrados de floresta. Essa marco nos coloca, mais uma vez, em primeiro lugar como o país que mais desmatou no mundo nesse período. A medalha de prata é da Indonésia, que está em segundo lugar com 18,7 mil Km². O bronze é do sudão, em terceiro, com 5,9 Km² de área devastada por ano. O ouro é nosso.

Sei que a inveja é um dos sentimentos mais baixos inerentes ao ser humano, inclusive é um dos pecados capitais, mas pense qual é o sentimento que nos vêm, quando comparamos o Brasil com a China que, segundo a publicação, é o país que mais planta árvores e só na década de 90 replantou cerca de 18 mil km² de seu território, uma área equivalente ao Kuwait.



Tem mais:


Dados da Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) dão conta de que o Brasil é recordista mundial em número de homicídios por armas de fogo. A cada 12 minutos um cidadão é morto dessa forma. Para piorar, parte desses homicidas, quando vão em cana, ajudam a engrossar o caldo nas superlotadas penitenciárias da terra adorada, o que faz do Brasil, florão da América, o país que mais encarcera pessoas na América Latina. Nosso número de agentes penitenciários é maior que o total de presos em muitos países.




O professor de neuropsicologia, especialista em distúrbios da comunicação e da linguagem da Universidade de São Paulo, Fernando César Capovilla, declarou em entrevista a um jornal de circulação nacional que o Brasil é recordista mundial de incompetência em leitura. Ele relata, com propriedade, que a alfabetização era feita pelo método silábico. A partir dos anos 80, com o Construtivismo, foi introduzido o método ideovisual que produziu péssimos efeitos. Concordo plenamente com ele. Hoje todos sabemos que muitos adolescentes têm dificuldade de reconhecer palavras simples de nosso vocabulário porque não sabem juntar sílabas e transformá-las em fonemas. Segundo a Unesco, a taxa de repetência de crianças brasileiras no nível básico está em 24%, o que torna o Brasil recordista do continente latino-americano.... e tome videogame e dança do Créu...créééuuu. Livro de literatura que é bom, nada.



Sem comentários


Não quero comentar, um a um, os recordes negativos que encontrei na pesquisa, mas alguns merecem, ao menos ser mencionados: ocupamos, ao lado da Malásia, o título de campeões mundiais em morte por sepse grave. Na verdade nunca tinha ouvido falar nessa doença (sim, sepse é uma doença que mata 400 mil brasileiros por ano e tem um custo anual de R$ 17 bilhões ao sistema hospitalar, sendo que R$ 10 bi são gastos com pessoas que acabam morrendo). Quer mais? Somos recordistas mundiais de acidentes de trânsito. A média é de um acidente a cada 4 minutos. O primeiro lugar também é nosso no cenário internacional de reciclagem de latas de aço, alumínio e de embalagens longa vida. Nos destacamos frente a várias nações européias em reciclagem de plástico e apresentamos bons níveis de recuperação de papel e papelão, à frente da Polônia, Dinamarca, Suécia, Reino Unido, Itália e Alemanha.




Ora bolas, mas isso não é um recorde ruim, como os outros mencionados. Sim, reciclar materiais que seriam depositados na natureza é, antes de tudo, um ato de preocupação com o meio ambiente. O que nos difere desses países, dos quais estamos à frente não é a consciência ecológica, mas a necessidade que a maioria dos filhos deste solo, catadores de latas e papelão têm de transformar materiais descartados em comida, todos na eterna esperança de conquistar com braço forte, o penhor dessa igualdade.




Pense nisso.

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