quarta-feira, agosto 15

Nossos Ociosos Amigos


É claro que você, leitor, tem um correio eletrônico (tá bem, vai... um e-mail) e, assim como todos os outros internautas, o utiliza para melhorar a funcionalidade do dia-a-dia no trabalho e também para se divertir e trocar idéias com os amigos – porque ninguém é de ferro. Ocorre que essa funcionalidade é constantemente contaminada por pessoas que não têm o que fazer e pensam que você também é um desocupado e dispõe de tempo ocioso pra perder com baboseiras.

É incrível a fertilidade da mente desse povo: enviam anjinhos que fazem milagres da noite para o dia, mesmo que a pessoa beneficiada seja um pecador inescrupuloso. Basta que reenvie a tal mensagem ao maior número de amigos possível e o milagre acontece; outra faz um truque barato de cartas, onde desaparece a que foi escolhida por você (claro que todas as outras também somem junto com ela) e ainda usam descaradamente a imagem de David Coperfield, como se isso desse algum crédito à picaretagem; quer mais? Lá vai: tem uma inusitada que ensina conquistar usando feromônios (segundo o dicionário Michaelis “é uma substância secretada por insetos, que serve de meio de comunicação entre indivíduos da mesma espécie para atração sexual”). Só pode ser um tipo de perfume feito a partir de joaninhas moídas... sei lá. Outro: fique horas transando e enlouqueça qualquer mulher usando o Guia do Orgasmo Feminino, ou seja: primeiro conquista com o perfume de inseto e depois leva às nuvens lição a lição, tudo devidamente explicado no seu e-mail... e por aí vai, cada mensagem mais idiota e inútil que a outra.

Mas o que me deixa perplexo são as malditas correntes de ajuda: Uma conta a triste história da pequena Natalie, que tem câncer no cérebro. Sua mãe, Krista Marie, diz que conseguiu ajuda da AOL (América On Line) e que para cada pessoa que receber o tal e-mail, o portal depositaria cinco centavos em sua conta. Eu, assim como tantos outros corações moles, me comovi com a história, mas antes de repassar a mensagem resolvi checar. Digitei www.aol.com.br e descobri que a AOL Brasil não presta mais serviços desde abril de 2006, ou seja, se depender de nossos e-mails, a pequena Natalie ficará em situação complicada.

Outra corrente veio com um título que implorava: “Não delete...leia com atenção” e relatava o estranho caso clínico vivido por Pedro, 15 anos, filho de Liane e Manoel (assim mesmo, sem sobrenome), que tem convulsões desde o nascimento até hoje, sem que as causas sejam detectadas em qualquer exame dentre os inúmeros que fez. Para isso tive que ler um texto de 5.422 caracteres, antes de ligar para o número dos supostos pais necessitados. Descobri que o telefone não existe, assim como o endereço não consta no site dos correios.

Certo dia encontrei uma amiga que não via há anos. Depois dos abraços de praxe trocamos telefone e e-mail, com a promessa de que não mais perderíamos contato. Antes tivesse perdido ou nunca tê-la reencontrado, pois ela nunca me telefonou e todos – eu disse “todos” - os e-mails que me enviou eram as malditas correntes do acode fulano, socorre ciclano, cuidado com isso, cuidado com aquilo. Mas uma delas era inusitada, aliás, duas: 1ª – foto de uma criança recém-nascida, com parte do rosto queimado (...) comovente. A mensagem dizia que, cada vez que fosse repassada, os pais receberiam U$0,3 sem, no entanto, especificar de que forma ou quem faria o depósito. 2ª - A empresa Ericson (fabricante de telefones celulares) estaria distribuindo notebooks inteiramente grátis para quem repassasse o e-mail a sete pessoas e que, se repassasse para 20 receberia o último modelo. Claro que eu, além de não acreditar e precisando de assunto para escrever este texto, resolvi ligar para a empresa e notificar a barbeiragem. Recebi a confirmação da mentira, além de um e-mail que dizia: “A Ericsson lamenta que a Internet, tão importante para as comunicações globais, seja utilizada de maneira inescrupulosa, causando sérios transtornos à empresa e abusando da boa fé das pessoas. Esclarece, ainda, à opinião pública que está tomando as providências cabíveis para identificar a origem destas ações fraudulentas”. Tomou?... acredita, bobão.

Agora a última, só para que você, astuto leitor, não se deixe mais enganar. O texto dizia: uma nova droga arrasadora fez a sua primeira aparição na Europa; agora chegou ao Brasil, com o nome de EasyDate. Uma estudante de 24 anos, testemunha que foi convidada por uma amiga para ir a uma casa noturna. Bebeu algumas caipirinhas, dançou e diz que não se lembra de mais nada; só se lembra de acordar no dia seguinte na cama de um quarto de motel, ao lado de uns quatro homens. Como tinha dificuldades em mexer as pernas (último efeito da EasyDate) conseguiu telefonar para o seu namorado que foi buscá-la e a levou ao hospital. Os médicos depois dos exames não detectaram o rastro de qualquer droga, porém o exame ginecológico revelou rastro de esperma de nove homens diferentes. (Eu, heim!!!!!)

Analisemos a barbárie: como é que nove homens entram em um motel, acompanhados de uma só garota e a recepção nem desconfia? Até porque essa quantidade de gente só pode ter ido de Kombi ou em carreata. Se realmente foi violentada, como é que os quatro homens restantes permitiram que ela telefonasse para o namorado? E mais, como é que não detectaram uso de drogas, se álcool é droga e ela própria disse que havia bebido? E como sabem que ela ingeriu tal de EasyDate, se não havia rastro de qualquer droga?

Sejamos sinceros... é tanta besteira a que temos de nos submeter, que me senti na obrigação de ser deselegante com a remetente. Só respondi um dos e-mails e pedi encarecidamente que ela nunca mais me enviasse o que quer que fosse pela internet.

Sei e admito que hoje é humanamente impossível sobreviver no mundo globalizado, sem o auxílio dessa importante ferramenta digital, mas às vezes ainda me pego a pensar em uma frase muito interessante mas que, confesso, não sei onde ouvi: “o computador foi criado para resolver problemas que não existiam antes dele ser inventado”. Pense nisso.

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