terça-feira, outubro 9

As mentiras que o comércio conta

É preciso dizer que, de uma forma ou de outra, sempre se gasta algo com o reinado de momo, nem que seja a paciência com aquelas vinhetas manjadas na televisão. Quem assiste ao desfile no local paga (caro), quem vai ao clube também e quem vê pela TV gasta, pelo menos a energia elétrica

Não tem outro jeito. Estamos cercados, acuados, sem ter por onde, nem para onde fugir. O comércio conseguiu nos tornar reféns de suas datas comemorativas e incutiu na mente da maioria das pessoas, a arte de presentear ou de nos obrigar a adquirir, desde os necessários, até os mais estapafúrdios produtos. Tudo, é claro, devidamente predeterminado por datas que se seguem, uma após a outra, todas muito bem distribuídas no calendário.

O intervalo de tempo entre elas, às vezes é tão curto que quase não nos permite respirar, ou melhor, quitar carnês, compensar cheques, pagar cartão de crédito...

Um bom exemplo é o Natal, a data mais famigerada de todas – não se esqueça que o Natal, para o comércio, tem início quase um mês antes. Mas vamos tomar como referência o dia 25 de dezembro, que é a data limite para nos venderem toda sorte de bugigangas. Até o reveillon são cinco dias de intervalo; e tome vender roupa branca, calcinha cor de sei lá o quê – pra dar sorte – carne pro churrasco, fogos de artifício e os famosos saldões de Natal, etc e tal. Aí vem janeiro, mês de férias: biquínis, cadeiras de praia, mochilas, pacotes de viagem, hotel pra cachorro, cursos de férias. Nada contra ir à escola, mas a pessoa estuda o ano todo e quando chega janeiro, as escolas querem convencê-la de que descansar é inútil – você já ouviu a frase que diz: enquanto descansa, carrega pedras? Pois é... E tome intensivão.

Benjor nos lembra: “fevereiro tem carnaval”. Digamos que as férias terminem em 30 de janeiro; teremos, portanto, menos de um mês de intervalo entre o descanso e a folia. É preciso dizer que, de uma forma ou de outra, sempre se gasta algo com o reinado de momo, nem que seja a paciência com aquelas vinhetas manjadas na televisão, que prenunciam o clima da avenida. Quem assiste ao desfile no local paga (caro), quem vai ao clube também e quem vê pela TV gasta, pelo menos a energia elétrica.

Mal tiramos a fantasia e as lojas já estão abarrotadas de ovos de chocolate. As fábricas não têm limite na criação dos mais diversos tipos: tem da apresentadora de TV, do herói do gibi, da bonequinha modelo e o escambau (isso existe?)

Outra modalidade muito usual é o ovo caseiro. É aquela coisa: a irmã vende, a tia vende, a vizinha vende, a colega de trabalho vende... difícil é falar não pra todas, sem magoar pelo menos uma. Até entendo que reforça o orçamento doméstico de quem fabrica; só não vejo graça em perder aquele tempo todo pra transformar apenas o formato do chocolate, pois o gosto permanece exatamente o mesmo da barra original.

Desnecessário comentar data por data, uma por uma, pois qualquer um pode fazer o teste, mesmo sem o apoio de calendários ou consulta e ver, ao final, o quanto somos hipnotizados pelo marketing que nos cerca. Uma rápida consulta na memória nos faz lembrar datas, como o dia dos namorados, dos pais, das mães, internacional da mulher, das crianças, além do aniversário de pessoas próximas que, apesar de não ser feriado, também nos sugerem a compra de presentes.

Há,porém, datas comemorativas tão insignificantes que muita gente nem sabe que elas existem, tamanha desnecessidade. Você sabia, por exemplo, que em 20 de janeiro comemora-se o dia nacional do Fusca? E 10 de março, dia do sogro – esse é até redundante, pois não há como ser sogro, sem antes ser pai; nove de abril é o dia nacional do aço; sete de abril, do silêncio; junho, além das consagradas festas juninas reserva também o dia 21 para o mel (isso mesmo, mel de abelha) e para a celebração nacional do luto (apesar de já termos finados em novembro) e por aí vai: dia da pizza (possivelmente criado em Brasília); do solteiro; do vizinho; das abelhas (ué, mas já temos o dia do mel); do material bélico, etc.

Porém nem tudo está perdido. Mesmo que os meios de comunicação, muitas vezes, nos convençam de que o supérfluo é necessário, mesmo quando nossos sentimentos mais frágeis nos obrigam a seguir o calendário capitalista o ano todo, sem permitir que tenhamos livre arbítrio para presentear quando sentimos vontade, encontramos, ainda que tardiamente, no dia 31 de dezembro, duas datas que podem nos fazer refletir e, por que não, praticar? São elas: dia das devoluções.

E não quero interpretar somente como o simples fato de devolver algo material, que se pediu emprestado; mas devolver um abraço, um carinho, uma visita, um favor, um perdão. O outro – e esse, talvez o mais importante – é o dia da esperança. Aquela que, assim como o amor, é benigna; não é invejosa; não se vangloria; não se ensoberbece; não se porta inconvenientemente; não busca os seus próprios interesses; não se irrita; não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas sim, com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Pense nisso.

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