sexta-feira, fevereiro 19

Depois da tempestade


Parados no trânsito, os para-brisas se transformam em janelas que nos apresentam, de forma semiótica, a cidade que não vemos em alta velocidade.


Um dia desses consegui sair mais cedo do trabalho, por conta da tempestade que se precipitou sobre a cidade de São Paulo no decorrer da tarde. Confesso que, apesar de já ter presenciado chuvas intensas e de grande potencial destrutivo, a que desabou sobre a capital nesse dia foi coisa surreal. As árvores pareciam bailarinas desengonçadas que não concatenam a coreografia e se perdem nos movimentos descadenciados. Ao sabor do vento que, hora soprava para um lado, hora para tantos outros, assim, sem ritmo, elas se debatiam recebendo o granizo que caía aos tantos, como grãos de arroz nos recém casados ao saírem da igreja.

No rescaldo do temporal sobraram carros boiando nas avenidas mais baixas, gente de calças arregaçadas a empurrar a água lodosa invasora de seus estabelecimentos comerciais; pontos de ônibus abarrotados de gente que se apinhava na pequena cobertura tentando se proteger da fina garoa que ainda brotava da rabeira de uma última nuvem. A imagem de todos juntos, em busca de abrigo formava um mosaico de cores que lembrava um óleo cubista.

Foi nesse clima de desordem metropolitana pós-temporal, que pude observar coisas que acontecem na grande metrópole e, geralmente, passam despercebidas sem deixar, sequer, resquícios em nossos retrovisores ao esverdear do sinal. No máximo um vendedor ambulante nos chama a atenção quando dependura o saquinho de balas de hortelã, com frases apelativas grampeadas e sai correndo para recolher antes que a gente vá embora com o saco de balas no espelho, sob pressão das buzinas do congestionamento.

Ao contrário da música do Rapa (http://www.youtube.com/watch?v=c482HcH0oZY) – em que faltou luz durante o dia e transformou a TV em espelho, refletindo a vida que as pessoas esquecem, quando o aparelho está ligado – naquela noite pós temporal, o para-brisa se transformou em janela e me apresentou, de forma semiótica, a cidade que não eu não conseguia ver em alta velocidade.

No bairro onde trabalho, por debaixo do viaduto – onde desliza o metrô feito minhoca ensaboada, diuturnamente, com seus passageiros apressados se segurando nas freadas e arrancadas – há normalmente, em dias sem chuva, um aglomerado de coisas e de gente que lembra saúvas destroçando a roseira. É um frenético vai e vem, que mistura camelôs, executivos, mendigos, gente feia e bonita, tudo ao mesmo tempo e no mesmo espaço, como que desafiando a lei da física. Nesse cenário ninguém está nem aí pra ninguém e cada um corre atrás de seu interesse.

Foi isso que observei parado em meio ao congestionamento que já batia na casa das duas horas de espera pelo escoamento da água na avenida e pela liberação do trânsito. Uma senhora na casa de seus sessenta e poucos anos me chamou atenção com seus chicletes a granel. Ao se aproximar e oferecer a goma – que dá gastura nos dentes quando acaba o açúcar – fez uma analogia entre o caos instalado em São Paulo naquela tarde e as escrituras sagradas. _ Isso tudo está escrito. ! Indagou como que tentando me resgatar da placidez em que me encontrava naquela bagunça toda e me reconduzir ao caminho da salvação. E assim fez com os demais motoristas, sempre recebendo em troca um argumento, um comentário ou até mesmo algumas moedas em troca da borracha colorida.

Mais à frente um grupo de mendigos tentava recuperar o que a enchente na avenida não destruiu por completo. Isso me fez lembrar um amigo que teve a casa invadida pela água e ainda assim encontrou humor ao comentar a desgraça: _ Pobre não tem nada, mas quando vem a enchente perde tudo.

Do outro lado da rua dentro de um bar, desses de uma porta só que têm uma mesa de bilhar e vendem torresmos gordurosíssimos e salsichas numa bandeja com molho de tomate e pimentão, havia um aglomerado de prostitutas e travestis, que geralmente se oferecem aos clientes a partir do pôr-do-sol, nas praças da redondeza. Na estiagem as classes se dividem e ocupam lados opostos do bairro. Penso que dessa forma não há como os clientes cometerem o erro crasso protagonizado por Ronaldinho fenômeno e confundir gato com gata. Enquanto a água não baixava, pelo jeito, o boteco serviu de tábua de salvação para ambos, ou ambas. Como quiser.

No carro parado ao meu lado um casal parecia adiantar a lua-de-mel, em movimentos de contorcionismo na tentativa de alcançar um ao outro, separados por câmbio e freio de mão. Nem aí para a plateia. Diferentemente dos dois senhores engravatados, certamente executivos ocupantes de um carro de luxo à minha frente, que não desgrudavam dos celulares, cada um com o seu a gesticular enquanto falavam.

Observando aquela cena perguntei a meus botões, como eles fariam vinte anos atrás, às oito da noite presos no congestionamento e sem telefones celulares? Mais uma vez minha imaginação voou longe e me veio à mente uma música de Eduardo Dusek. Se não me falha a memória, chama-se Nostradamus, ou algo que o valha. Cantarolei sozinho olhando as gotas retardatárias de chuva se espatifar no para-brisa.

A coisa fluiu assim por um logo tempo. A cada metro avançado no sentido do semáforo desligado e devidamente substituído pelo guarda de trânsito – desses que em dias normais estão mais preocupados em nos multar, do que organizar o mar de automóveis – havia uma comemoração de motoristas e acompanhantes, como se fosse um gol de seu time em final de campeonato. Engraçado como situações diferentes terminam com reações iguais. Aquela euforia a cada palmo andado era igualzinha aos gritos de meus vizinhos do vilarejo em que passei a infância, quando a energia elétrica voltava depois do apagão.

Grosso modo, dá até pra fazer uma comparação entre a enchente que me prendeu no trânsito e a falta de luz na infância: em ambas as pessoas se sentem desprotegidas e, ainda que involuntária ou compulsoriamente, se aproximam umas das outras para compartilharem o mesmo problema, mesmo sendo seres metropolitanos e, consequentemente, sozinhos em um mar de gente.

Só uma coisa me deixa menos apreensivo, quando lembro do aquecimento global, que promete tornar as chuvas mais intensas: estaremos todos unidos a cada tempestade.

A propósito: não resisti ao terminar de escrever esse texto e tasquei um “google”. A música de Eduardo Dusek chama-se mesmo “Nostradamus”. O trecho ao qual me referi diz:

“Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"